terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Velhos problemas? Público, acervos, leitura e bibliotecários em cenas da história da biblioteca pública Ana Maria de Oliveira Galvão Perspectivas em Ciência da Informação, v.19, número especial, p.211-226, out./dez. 2014 211 Velhos problemas? Público, acervos, leitura e bibliotecários em cenas da história da biblioteca pública Ana Maria de Oliveira Galvão Doutora em Educação. Professora Associada da Faculdade de Educação da UFMG. http://dx.doi.org/10.1590/1981-5344/2277 O artigo tem como objetivo discutir quatro grandes preocupações que têm sido permanentes na história das bibliotecas públicas: o público e o acesso; a constituição dos acervos; o controle sobre os modos de ler; e o papel do profissional responsável por essa instituição. Essas quatro preocupações são discutidas a partir da reconstrução de cenas que as expressaram em diferentes momentos históricos, no Brasil e em outros países. Constatamos que: há uma tensão, ao longo da história, entre atender às demandas do público leitor e as leituras consideradas benéficas pelos bibliotecários e professores na constituição dos acervos das bibliotecas; o par leitura e instrução-educação tem se sobreposto ao par leitura e lazer-diversão na constituição dos acervos; há uma tentativa de controle também dos modos de ler na biblioteca; gradativamente, os papéis atribuídos aos bibliotecários têm se complexificado – de conservador a mediador da leitura. Palavras-chave: Biblioteca pública. História. Leitura. Old problems? Public collections, librarians, and reading scenes in the history of the public library This article aims to discuss four major concerns that have been standing in the history of public libraries: the public and the access; the creation of collections; the control over the ways of reading; the role of the professional in charge of the institution. We discussed these four concerns using the reconstruction of scenes that expressed them in different historical moments, in Brazil and in other countries. We found that: there is a tension, throughout history, between the demands of the readers and the readings considered beneficial by librarians and teachers in the constitution of the collections; reading has been associated with instruction and education more than with leisure and fun, in the constitution of collections; there is also an attempt to control the ways of reading in the library; gradually, the roles of the librarian have complexified – from a conservative to a reading mediator. Keywords: Public library. History. Reading. History. Recebido em 20.11.2014 Aceito em 24.11.2014 1. Introdução Uma prática, um lugar e uma escrita. Michel de Certeau (1982) assim define os elementos que constituem a operação historiográfica. Ao dizer do lugar de produção, o autor refere-se, fundamentalmente, ao lugar institucional do pesquisador – e, por conseguinte, às relações de poder dele constitutivas – e também ao lugar do presente, tempo ocupado, inexoravelmente, pelo historiador. Essas duas dimensões, mesmo que não tenhamos delas consciência, nos faz optar por certas histórias, e não por outras. O fato de ser pesquisadora dos campos da História da Educação e da História da Cultura Escrita tem feito com que eu estude a história das bibliotecas a partir de um olhar muito específico, e isso, certamente, tem consequências nas abordagens escolhidas para tratar o tema neste artigo. O presente também inquieta e interroga, e coloca-nos diante de realidades que nos fazem selecionar, do passado, aquilo que parece mais interessante para compreender uma biblioteca em processo de reconfiguração, diante de um novo contexto social, em que novas mídias, novos gêneros literários e novos públicos são onipresentes. Foi, então, a partir desse duplo olhar construído pelo lugar de produção em que me encontro – institucional e do tempo presente – que, nos últimos anos, ao realizar estudos e pesquisas e, por meio deles, percorrer a história das bibliotecas, tanto no Brasil, quanto em outros países do mundo ocidental, pude constatar que, pelo menos, quatro grandes preocupações têm-se revelado constantes na história das bibliotecas públicas: o público e o acesso; a constituição dos acervos; a necessidade do controle sobre os modos de ler; e o papel do profissional responsável por essa instituição. Neste artigo, abordarei essas quatro preocupações, por meio da discussão de cenas que as expressaram, em diferentes momentos históricos, tanto no Brasil, quanto em outros países. São cenas (re)construídas a partir estudos que realizei mas também, e principalmente, a partir de outros estudos. 6. Considerações finais Os tempos mudaram, as inquietações e ameaças que rondam a biblioteca se transformaram. Mas, a história nos faz pensar sobre a permanência de algumas delas, que continuam a nos atormentar, em relação ao acesso e ao público, ao acervo, ao controle da leitura e ao papel do bibliotecário. Como expandir as bibliotecas até os lugares mais remotos? Como compreender a sua ausência em lugares tão óbvios, como instituições públicas de educação infantil (PEREIRA, 2011)? Como torná-la atraente a um público cada vez mais amplo e com interesses tão diversos? Como dissociá-la da imagem do medo, do silêncio e do sagrado? Como associá- la a um lugar de prazer? Como acolher os neo-leitores, crianças e adultos que, em um país de universalização tardia da escolarização, como o Brasil, começam, nesse início do século XXI, a procurar livros, livrarias e bibliotecas? Como fazer compreender que sempre haverá ameaças aparentes à biblioteca? Como se desvencilhar de uma concepção iluminista de leitura, que atribui ao livro o poder de mudar as mentes? Como, então, libertar-se da ideia de que o neo-leitor é incapaz de construir sua própria trajetória de leitor e insistir em prescrever-lhe o que deve e o que não deve ser lido? Como incorporar a discussão da ideia, na formação de professores e de bibliotecários, de que as boas e as más leituras são uma construção histórico-social e que os cânones literários não são absolutos nem universais? Muitas perguntas. Poucas respostas. Apenas uma certeza – se é que há alguma espécie de certeza quando falamos na perspectiva da História: livros sempre circularam, sempre foram lidos, apesar da escola, apesar da biblioteca. Referências CARNEIRO, Maria Luiza Tucci. Livros proibidos, ideias malditas. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002. CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982. CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 1994. CHARTIER, Anne-Marie; HÉBRARD, Jean. Discursos sobre a leitura (1880- 1980). São Paulo: Ática, 1995. COSTA, Lúcia de Fátima Vieira da; GERMANO, José Willington. Anos 60: leitura e educação popular no discurso dos inquisidores. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO, 3., 2002, Anais... Natal, 2002. Disponível em: . Acesso em: 15 mar. 2013

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Saiba como fazer o regulamento de uma Biblioteca Pública Municipal

By PROCEDATA INFORMÁTICA LTDA | Published: 24 DE JANEIRO DE 2017 Bibliotecária dá dicas para criação de regimento interno Mediante dúvidas enviadas ao Conselho Regional de Biblioteconomia 6ª Região (CRB-6), a diretora do Sistema Estadual de Bibliotecas Públicas Municipais de Minas Gerais, Cleide Fernandes (CRB-6/2334), dá dicas para criação de regulamento para bibliotecas públicas municipais. A bibliotecária conta que de acordo com o livro “Regulamentos, orçamentos, etcétera: miniguia”, o regulamento deve conter: BIBLIOTECA PÚBLICA MUNICIPAL Nome da unidade, localização, os endereços para contato que incluem o do correio, o da página na internet, correio eletrônico, telefone, etc. Horário e período de funcionamento. Estrutura organizacional, incluindo o nome das seções que compõem a unidade de informação, com contatos. Estrutura física, descrição física da unidade, por exemplo: acervo, sala de estudos, sala de leitura, sala de obras raras, sala de multimeios, etc. Serviços oferecidos, cada um dos serviços deve ser acompanhado de esclarecimentos e detalhes de interesse do usuário. Direitos dos usuários, especificação dos direitos dos usuários na utilização dos produtos e serviços oferecidos pela unidade de informação, os níveis de acesso aos conteúdos do acervo, etc. Deveres dos usuários, discriminação dos deveres dos usuários, como por exemplo, forma de proceder em caso de extravio de material, vestimenta, lanche, etc. Produtos oferecidos, como boletins, sumários, etc. É importante dar publicidade ao regulamento e deixá-lo afixado em local visível. Confira aqui o modelo de regulamento disponibilizado. Modelo de Regulamento REGULAMENTO DA BIBLIOTECA PÚBLICA MUNICIPAL XXXXXXXXXXXXX A Biblioteca Pública Municipal XXXXXXXXXXXXX é uma entidade cultural, sem fins lucrativos, aberta ao atendimento da comunidade em geral, podendo qualquer pessoa freqüentá-la livre e gratuitamente. As seguintes normas disciplinarão o funcionamento da Biblioteca Pública Municipal, bem como o sistema de empréstimo do seu material bibliográfico, obrigando sua observância a todos os que freqüentarem e utilizarem suas dependências e acervo. 1. HORÁRIO DE FUNCIONAMENTO: De 2ª a 6ª feira, das 8h às 19h Aos sábados, das 8h às 12h 2. INSCRIÇÃO DO USUÁRIO/CADASTRO: Documentos solicitados para cadastramento do usuário: a) Documento comprobatório de residência atualizado (em caso de residência alugada, necessita-se da apresentação do contrato de aluguel ou recibo de pagamento). Em caso de alteração de endereço, trazer comprovante atualizado; b) Documentos de identidade, telefone convencional; 3. EMPRÉSTIMO DE OBRAS E PRAZOS: Os usuários terão acesso ao acervo nas seguintes modalidades: 3.1. Consulta interna: a) Obras de referência: dicionários, enciclopédias, bibliografias; b) Periódicos. 3.2 – Consulta externa: a) Os usuários têm direito de retirar como empréstimo até 02 (dois) livros; b) Os usuários têm o direito de retirar os livros pelo prazo de 15 (quinze) dias, podendo renová-los apenas se os mesmos não estiverem reservados; c) O cadastro e a senha são indispensáveis para a retirada de livros. Na falta de qualquer um dos dois, faz-se necessária a apresentação de documento de identidade; d) A retirada da(s) obra(s) e prazo(s) de empréstimo poderão sofrer alterações por parte da biblioteca, em atendimento à conveniência do uso da mesma; e) A devolução das obras deverá ser feita diretamente ao funcionário encarregado de recebê-las. Caso contrário, a devolução não será reconhecida pela biblioteca, ficando o usuário sujeito às multas e penalidades do item 4. 3.3 – Reserva Permite o usuário formalizar o pedido de empréstimo da obra quando a mesma estiver emprestada para outro usuário. a) A reserva deverá ser feita diretamente na Biblioteca desde que o material a ser reservado esteja emprestado; b) A obra reservada ficará disponível para o usuário por 48 horas após sua devolução. Esse contato/controle de verificação se a obra está disponível é de inteira responsabilidade do usuário. 4. MULTAS E PENALIDADES: a) A multa por dia/livro de atraso para empréstimos normais é de R$1,00 (um real), incluindo sábados, domingos e feriados; b) A multa poderá ser quitada através do pagamento do valor em dinheiro ou da doação de livros literários em bom estado (livres de cupins, traças, fungos, sem rabiscos ou faltando qualquer parte). c) O usuário que, excedido o prazo de empréstimo, mantiver obras em seu poder, e que for surpreendido na posse ilegal ou danificando as obras, periódicos ou qualquer material da biblioteca, poderá sofrer as seguintes penalidades: • Perderá o direito de tomar emprestados livros da biblioteca; • Será obrigado ao pagamento de indenização referente ao ato cometido; • A ocorrência será comunicada à direção da biblioteca. 5. DISPOSIÇÕES GERAIS: a) O uso indevido do cadastro por terceiros será de inteira responsabilidade do usuário; b) Sendo a Biblioteca local de estudo, consulta e pesquisa, são proibidas em suas dependências atividades tais como: recreação, lanche, bebida, fumo, celulares (que não estejam em módulo silencioso), fazendo-se obrigatório o silêncio e a fala discreta nos ambientes de estudo; c) É proibida a entrada de usuários no acervo portando qualquer espécie de bolsa, mochila, sacola, fichário ou pasta; d) Os usuários da biblioteca deverão estar convenientemente trajados para poderem ingressar em suas dependências. É expressamente vetado o uso de trajes de banho e a ausência de camisa; e) As visitas orientadas ficam condicionadas a prévio agendamento com a administração da biblioteca; f) Os casos não previstos neste regulamento de uso e empréstimo da Biblioteca Pública Municipal serão resolvidos pela direção da biblioteca.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

BIBLIOTECÁRIO HÍBRIDO

Fernando Modesto [Janeiro/2017] Toda inovação tecnológica gera mudanças das mais diversas. No caso das bibliotecas, o efeito das inovações requer atenção com a necessidade de adaptação dos processos de organização e tratamento da informação, bem como da prestação de serviço. Assim, no espaço dos serviços de informação as tecnologias são disruptivas e, sob aspecto positivo, têm impulsionado a transição das bibliotecas tradicionais (operadas por processos manuais e, posteriormente, por processos informatizados) para o patamar das bibliotecas digitais. São aspectos que estabelecem novos modelos de serviço mais complexos e tecnologicamente desafiadores, com a finalidade de atingir aos interesses e demandas informacionais dos usuários (pessoas e organizações). As mudanças provocadas pela tecnologia, após impacto inicial no ambiente, tende a gerar maior produtividade e, ao mesmo tempo, provocar a redução de recursos (humanos e financeiros), baseados também nas demandas dos usuários. James G. Neal, em artigo “The Entrepreneurial Imperative” (Libraries and the Academy, Jan. 2001, p. 2), comenta que a mudança é uma constante organizacional que estimula estruturas híbridas, programas e atribuições. Com a tecnologia da informação imersa – na sua reflexão, no ambiente do ensino superior – faz-se necessário repensar a educação, passando do modelo de instrução para o paradigma da aprendizagem. É, neste cenário, que as bibliotecas, em especial as universitárias, são pressionadas a reverem seus valores e a adotarem um novo paradigma. O paradigma da aprendizagem. Desta forma, desenvolvem em suas operações uma cultura de compartilhamento baseada em dois elementos importantes: a) um modelo de serviço híbrido estabelecido sob estruturas organizacionais flexíveis; e b) um quadro de pessoal dotado de habilidades híbridas. Lisa Allen, em palestra intitulada “Hybrid Librarians in the 21st Century Library” (ACRL Twelfth National Conference, 2005), ao abordar o tema do ambiente hibrido, destaca que o desenvolvimento da biblioteca digital ultrapassou modelos organizacionais até então existentes para os serviços de biblioteca, caracterizados como escolar, por natureza. A biblioteca digital passa a requisitar um modelo organizacional ou cultural, alinhado a uma nova estrutura de valores, tais como: menos hierárquica, mais facilitadora, colaborativa e evolutiva. No centro deste modelo encontra-se a figura do bibliotecário, definido como “bibliotecário híbrido”. Salienta-se que as bibliotecas precisam manter um escopo de "material genérico” como base do seu acervo de conhecimentos, porém, nesse acervo deve acrescer-se novas áreas de saber. O acréscimo de novos saberes acontece também com a competência do bibliotecário, em especial, do profissional do século 21. As equipes de bibliotecas precisam apoiar aos usuários no ambiente digital, bem como no ambiente impresso. Neste sentido, necessitam desenvolver e atualizar os seus conhecimentos técnicos e suas competências tecnológicas de forma contínua para atuarem com melhor destreza em ambos os contextos. Para compreender o significado do termo “bibliotecário híbrido”, é preciso estar familiarizado com o conceito da “biblioteca híbrida”. Conceito adotado para um ambiente de informação estruturado em serviços impressos, analógicos e digitais, e que fornecem suporte às necessidades dos usuários a partir da descoberta de informações que possibilite o acesso, uso, manipulação e análise dos recursos de informação providas. Na definição, entende-se que o auxílio aos usuários na busca e localização de informações é apenas uma parte compreensiva dos serviços ofertados pelos bibliotecários. No desempenho da sua atividade profissional, o bibliotecário deve adotar um equilíbrio entre a oferta de serviços e produtos impressos e digitais, baseado na forma de demanda do público. E a demanda evolui conforme a cultura social e tecnológica. Sobre a mudança organizacional no ambiente bibliotecário, pesquisas realizadas em meados da década de 1990 aos primeiros anos do século 21, identificaram estratégias para os recursos humanos existentes em bibliotecas norte-americanas e orientados ao apoio à biblioteca digital e aos serviços baseados em tecnologias computacionais. Essas estratégias redesenham os cargos e atribuições funcionais existentes em bibliotecas. Por exemplo, a posição de “bibliotecário de referência”, numa universidade, se transforma em “bibliotecário instrutor de tecnologia da informação e de referência”. A posição de “bibliotecário responsável pelo suporte no uso do software de automação e acesso às bases de dados”, muda para responsável também pela criação e gestão do website ou do conteúdo da biblioteca nas mídias digitais. Outros exemplos encontrados referem-se à denominação de cargos de bibliotecário como: coordenador de tecnologia educacional de biblioteca; bibliotecário de recursos eletrônicos; ou bibliotecário de serviços de informação digital. Há também designações como: bibliotecário de literacia em informação e instrução tecnológica; e bibliotecário de aplicação digital. Nestas denominações identificam-se o tipo de trabalho e o perfil profissional necessário para o desempenho, devido à ênfase em competências para o uso e aplicação de recursos digitais. As tarefas pertinentes à biblioteca combinam agora várias atividades essências na provisão de serviços e de apoios informacionais. Estudiosos na temática das competências acreditam que as novas funções, no ambiente da biblioteca, refletem uma mudança profunda nas atividades tradicionais para atividades mais amplas e complexas. Atividades que requerem competências técnicas e tecnológicas elevadas, obtidas por meio do estudo continuado (leitura, cursos de capacitação, pós-graduação profissional). As competências tecnológicas estão relacionadas aos recursos eletrônicos, e ao ambiente da Web de dados e das mídias digitais tornados cada vez mais importantes no espaço de atuação do bibliotecário. Embora não se possa determinar a existência de uma tendência no Brasil, analisando o cenário externo, observa-se o significativo requisito de habilidades técnicas relacionadas ao uso de ferramentas e de recursos para web, especialmente para exploração das mídias digitais. Aspecto que se alinha com a ideia da biblioteca híbrida. No Brasil, os usuários de bibliotecas requisitam cada vez mais acessos à coleções e serviços disponíveis através do ambiente Web. Quanto ao novo modelo de serviço informacional, este está baseado no conceito do trabalho colaborativo e em equipe. Há uma série de razões para as bibliotecas realizarem uma transição para esse ambiente de trabalho suportado na colaboração. A literatura indica que muitas bibliotecas já fazem essa transição, ou estão em vias de o fazer. As razões estão relacionadas não só às mudanças tecnológicas e escassez de recursos (humanos e financeiros), mas também aos requisitos de um novo modelo de serviço de biblioteca. Um modelo adaptado ao contexto da educação do século 21, baseado na construção do conhecimento, em contraposição à transmissão do conhecimento. Bibliotecas como espaços de informação e de aprendizagem. Ademais, segundo a literatura consultada, em períodos de recursos escassos e de inovações tecnológicas emergentes, é importante que a gestão da biblioteca proporcione oportunidades aos seus membros, locados em diferentes unidades ou funções informacionais. Que eles possam trabalhar em conjunto no desenvolvimento de objetivos comuns e de novos projetos de organização e disseminação da informação. Em relação à questão das bibliotecas híbridas, para que elas sejam sucedidas na prestação de serviço, devem estabelecer estratégias de relacionamento com o setor de computação (ou informática) existentes na organização. Além de envolver a equipe em iniciativas de literacia em informação, por exemplo. De maneira geral, em ambientes híbridos de informação, os bibliotecários projetam produtos e serviços baseados em sistemas especializados, a fim de desenvolver gateways de informação para os seus usuários. Ações, portanto, que requerem colaboração próxima com o pessoal da computação. No contexto da universidade, enquanto uma comunidade de construção de conhecimentos, as ações colaborativas são essenciais. Essas comunidades, nas quais a biblioteca é parte central, evoluem por meio de atividades que cooperam por meio do processo de repensar formas de apoio ou aprimoramento da construção de conhecimento. Bibliotecas híbridas exigem formas de agir independente, porém com sensibilidade às necessidades da organização e/ou do público. O equilíbrio entre a identificação da missão da biblioteca e da identidade de seu serviço precisa ser alcançado. Entretanto, os membros da equipe da biblioteca envolvidos em atividades colaborativas devem ser valorizados por suas competências e seus pontos fortes, a fim de trabalharem estimulados nessas ações colaborativas, e nos quais espera-se o envolver por uma cultura de compartilhamento dos conhecimentos profissionais. A colaboração pode ser facilitada por meio da formação de equipe. Terminologias como “ambiente em equipe” e “mudança de ambiente” entraram para o vocabulário da Biblioteconomia a partir da década de 1990, refletindo uma alteração no tipo de recrutamento de bibliotecários para o ambiente de trabalho. Como as bibliotecas em um “novo mundo” precisam mudar a sua cultura organizacional, necessitam criar estruturas que reforcem essas mudanças, e mudanças para um ambiente baseado em equipe que perturbem a cultura estabelecida. No caso do ambiente universitário, os bibliotecários são implantados nos setores de informação bibliográfica das unidades acadêmicas onde estudantes e docentes estão localizados com pouca interação entre eles. O esforço de colaboração deve estar baseado no uso de recursos impressos e eletrônicos que promovam o sistema de biblioteca e que combina o alto uso da tecnologia, com o bibliotecário oferecendo uma assistência técnica, bem como assistência de referência tradicional. Em realidade, bibliotecários desempenham múltiplos papeis neste tipo de ambiente. A biblioteca híbrida representa a descoberta da aprendizagem como ferramenta que requer habilidades mais próximas da Biblioteconomia. A composição de equipes colaborativas é destacada com um número ideal situado entre quatro a sete pessoas, orientadas sob objetivos claros e baseados em problemas integrados com as metas da biblioteca, e considerando a importância da comunicação, da autoridade para tomar e implementar decisões por conta própria e contando com um líder experiente, disposto a mudar com habilidade em facilitar e desenvolver relacionamentos. Uma equipe multifuncional precisa ter missão clara, na qual se inclui o propósito da própria equipe, o problema ou oportunidade buscada, e os resultados, recursos e funções almejados. Além disso, esses resultados almejados têm que ser orientados a dados, como as decisões de uma equipe de sucesso estarem baseadas em pesquisa sistematizada e aprendizagem contínua ao invés de limitada apenas ao “pensamento de grupo”. No cenário atual, a biblioteca para atingir um nível de excelência em seus serviços precisa estar conectada em redes com suas próprias estruturas e/ou agências similares. No cenário descrito considera-se que o modelo de biblioteca híbrida incorpora uma equipe composta, entre outros, por bibliotecários híbridos e que chegam ao seu público, bem como forneça recursos tecnológicos (laboratórios, salas multimídias etc.) e mantenha ativa a “mística da biblioteca” como lugar vital de conexão entre pessoas. Além do cuidado em não marginalizar aqueles usuários que procuram uma experiência de biblioteca tradicional. Afinal, a biblioteca tradicional não morreu, ela apenas se transforma ou se transfigura pressionada pelo desenvolvimento tecnológico e pela agilização no atendimento de demandas simples às complexas, por vários canais de comunicação e interação: impresso, analógico e digital.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

García Lorca e mais 300 autores espanhóis entram em domínio público

Jesús Ruiz Mantilla e Tommaso Koch - El País - 01/01/2017 http://www.blogdogaleno.com.br/2017/01/04/garcia-lorca-e-mais-300-autores-espanhois-entram-em-dominio-publico No ano de 1936, a Espanha se partiu em duas. E o golpe de Estado que abriu caminho para a Guerra Civil arrasou também um futuro de brilhantismo nas letras ao grito de “Morram os intelectuais!”. Oitenta anos depois, a maioria das feridas daquela época estão cicatrizadas. A Biblioteca Nacional espanhola quer terminar de curá-las e por isso elaborou um índice de autores desaparecidos dos dois lados, cujos direitos passam a domínio público agora. “Foi um ano dramático, no qual se perdeu muito mais do que o imaginável. Resta construir pontes, mais ainda agora que os direitos desses autores ficam à disposição de todos e se multiplicam as possibilidades de difusão de suas obras”, afirma a diretora da BNE, Ana Santos Aramburo. Na Espanha, a lei determina 70 anos a partir da morte de um autor para que sua obra entre em domínio público. A partir de 1o de janeiro do ano seguinte, qualquer pessoa pode usar suas obras, com a condição de respeitar o direito moral e a autoria. No entanto, o sistema, semelhante na maioria dos países, vale apenas para as mortes posteriores a 7 de dezembro de 1987, quando foi reformada a Lei de Propriedade Intelectual. Os autores falecidos antes estão sujeitos à legislação de 1879: seus direitos caducam 80 anos e um dia após a morte, como esclarece o advogado especialista em Propriedade Intelectual Andy Ramos. Assim, a obra de autores como García Lorca e Valle-Inclán, falecidos em 1936, já se tornou disponível a todos. E em 1o de janeiro somou-se a ele Miguel de Unamuno, morto em 31 de dezembro de 1936. Mas esse ano significou muito mais. José Carlos Mainer, catedrático da Universidade de Zaragoza e crítico do EL PAÍS, elaborou uma lista na qual, além dos consagrados, inclui vários autores dessa época a serem lembrados. “O ano de 1936 foi um annus horribilis, mas também mirabilis. Sabemos quem foram seus falecidos célebres. Mas também foi um ano de grandes livros de autores que continuaram vivos: Juan de Mairena, de Machado; Canción, de Juan Ramón Jiménez; o segundo Cántico, de Jorge Guillén; Razón de amor, de Pedro Salinas, La realidad y el deseo, de Luis Cernuda: obras de velhos e de outros que já não eram tão jovens. Isso nos dá a medida do que foi destruído sem chance de recuperação”, comenta. “Para mim, aquele ano continua sendo o erro que abriu uma brecha duradoura no desenvolvimento de nosso país como comunidade cultural e política.” Não só do lado perdedor, mas também entre os que ganharam a guerra. “Falo de Muñoz Seca, a quem sempre deveremos La venganza de don Mendo… Não esquecemos de pessoas de extrema direita que também desapareceram como Ramiro de Maeztu e Manuel Bueno, que deixou Valle-Inclán desamparado e que escreveu em 1936 um romance sobre as culpas dos descontentes do início do século, Los nietos de Danton. Também menciono como escritores três clérigos assassinados: Julián Zarco, que era bibliotecário erudito de El Escorial; Zacarías García Villada, o criador da paleografia espanhola, e o Padre Poveda, criador da Institución Teresiana, que tem papel de destaque no feminismo católico. E, sem dúvida, José Antonio Primo de Rivera e Ramiro Ledesma Ramos, porque, apesar de serem políticos fascistas, escreveram romances”, afirma Mainer. Parece que uma nova vida espera por muitos deles. José Antonio Ponte Far, patrono da Fundación Valle-Inclán, considera que o vencimento dos direitos “vai favorecer a difusão da obra de Valle e o aumento de suas traduções ao galego”. “A passagem para o domínio público é notável. Para vários autores, representou uma publicação muito maior. Mas quantidade não significa qualidade”, adverte Diego Moreno, responsável pela editora Nórdica. É precisamente para aumentar o alcance das criações que a propriedade intelectual, diferentemente da de um carro ou casa, caduca. “Os prazos respondem a um equilíbrio entre o acesso à Cultura, que enriquece a sociedade, e a proteção do autor e de seus descendentes”, acrescenta Ramos. No caso de García Lorca, a receita dos direitos era repartida igualmente entre seus seis herdeiros. “Não são cifras milionárias, mas alguma renda, afinal”, afirma Mercedes Casanovas, da agência Casanovas y Lynch, que gerencia os direitos do poeta granadino. E Moreno conta como se calcula habitualmente o número. Primeiro, multiplica-se a tiragem do livro por seu preço de venda. Entre 8% e 10% do total se destinam aos royalties: normalmente a metade como antecipação e a outra à medida que a obra vai sendo vendida. “As criações de Lorca sempre foram publicadas em muitas editoras, sem contratos exclusivos. Mas ultimamente temos recebido perguntas sobre quando passava a domínio público”, acrescenta Casanovas. Essas dúvidas refletem a confusão envolvendo os direitos autorais. Por exemplo, Lorca já é de todos na Espanha, mas não nos Estados Unidos, onde o prazo depende da data da primeira publicação de cada obra no país. Ao mesmo tempo, muitíssimos autores estrangeiros são liberados em seu país uma década antes dos 80 anos espanhóis e com frequência as editoras nacionais não sabem se já podem publicá-los – como fizeram erroneamente com O grande Gatsby em 2011 – ou não, porque alguém detém os direitos na Espanha. É por isso que muitos entrevistados expressam o mesmo desejo: um portal que permita identificar quem administra os direitos de cada autor, até quando ou se já pertence ao domínio público. A lista da Biblioteca Nacional, pelo menos, é um primeiro passo.

3 livros que vão virar filme em 2017

Cinema 10 - 23/11/2016 Transportar a história de um livro para a telona nem sempre é missão fácil. Muitos amantes da literatura ficam inconformados com os “cortes” necessários para a adaptação, enquanto cinéfilos ressaltam a contribuição dos efeitos especiais e das grandes atuações para dar vida à história contada em papel. Em 2016, grandes obras literárias foram revividas no cinema, como “A Garota No Trem”, “Alice Através do Espelho” e “Como eu Era Antes de Você”. No ano que vem, outras grandes obras também vão estrear como filme no Brasil. Para você já ir se aquecendo, separamos a sinopse de três livros que serão adaptados para o cinema e ainda indicamos onde é possível comprá-los. http://www.blogdogaleno.com.br/2016/11/24/3-livros-que-vao-virar-filme-em-2017 A Longa Caminhada de Billy Lynn (Ben Fountain) O livro Billy Lynn’s Long Halftime Walk, que ainda não foi traduzido para português, conta a história de Billy Lynn, soldado americano, de 19 anos, e seus companheiros de exército. Após serem filmados derrotando inimigos na guerra no Iraque, eles se transformam em sensação no YouTube. O governo os traz de volta para casa para uma turnê pelo país e, durante as últimas horas da visita, Billy vai se misturar com os ricos e poderosos, suportar a política e louvor de seus colegas americanos e se apaixonar. Porém, amanhã ele deve voltar para a guerra. Vencedor do National Book Critics Circle Award, na categoria Ficção, o livro está a venda na Saraiva. Sete Minutos Depois da Meia-Noite (Patrick Ness) O livro, que pode ser encontrado na versão digital na Amazon, conta a história de Connor, um menino de 13 anos que sofre com a doença da mãe, os maltratos da avó e o bullying dos colegas. Todas as noites, Connor acorda de um terrível pesadelo e recebe a visita de um monstro-árvore, que promete o ajudar desde que o garoto nunca minta para ele. Baseado na idéia de Siobhan Dowd, Sete minutos depois da meia-noite é uma história em que fantasia e realidade se misturam, em um livro que traz ilustrações lindíssimas que complementam a sensibilidade do texto. Deixe a Neve Cair (Jhon Green, Maureen Johnson e Lauren Myracle) Dividido em três histórias distintas que se cruzam em algum momento – O Expresso Jubileu, O Milagre da Torcida de Natal e O Santo Padroeiro dos Porcos – o livro traz contos que acontecem na véspera de Natal e têm como pano de fundo uma forte nevasca. Com uma leitura leve, a obra é voltada para o público adolescente, mas combina bem com um fim de semana na praia. Você pode comprá-lo na Americanas.com. Aproveite as dicas para renovar os livros de cabeceira. Não se esqueça que comprando pelo Méliuz você tem acesso a cupons de desconto exclusivos e ainda recebe de volta, em dinheiro, uma parte do valor gasto (cashback).

A importância da leitura infantil para o desenvolvimento da criança

http://www.blogdogaleno.com.br/2012/06/13/a-importancia-da-leitura-infantil-para-o-desenvolvimento-da-crianca Eline Fernandes de Castro Portal R7 - Brasil Escola “O desenvolvimento de interesses e hábitos permanentes de leitura é um processo constante, que principia no lar, aperfeiçoa-se sistematicamente na escola e continua pela vida afora.” Bamberger Resumo Reconhecer a importância da literatura infantil e incentivar a formação do hábito de leitura na idade em que todos os hábitos se formam, isto é, na infância, é o que este artigo vem propor. Neste sentido, a literatura infantil é um caminho que leva a criança a desenvolver a imaginação, emoções e sentimentos de forma prazerosa e significativa. O presente estudo inicia com um breve histórico da literatura infantil, apresenta conceitos de linguagem e leitura, enfoca a importância de ouvir histórias e do contato da criança desde cedo com o livro e finalmente esboça algumas estratégias para desenvolver o hábito de ler. Palavras-chave: Educação, Literatura Infantil, Leitura, Desenvolvimento da criança. Introdução O estudo realizado tem por objetivo, verificar a contribuição da literatura infantil no desenvolvimento social, emocional e cognitivo da criança. Ao longo dos anos, a educação preocupa-se em contribuir para a formação de um indivíduo crítico, responsável e atuante na sociedade. Isso porque se vive em uma sociedade onde as trocas sociais acontecem rapidamente, seja através da leitura, da escrita, da linguagem oral ou visual. Diante disso, a escola busca conhecer e desenvolver na criança as competências da leitura e da escrita e como a literatura infantil pode influenciar de maneira positiva neste processo. Assim, Bakhtin (1992) expressa sobre a literatura infantil abordando que por ser um instrumento motivador e desafiador, ela é capaz de transformar o indivíduo em um sujeito ativo, responsável pela sua aprendizagem , que sabe compreender o contexto em que vive e modificá-lo de acordo com a sua necessidade. Esta pesquisa visa a enfocar toda a importância que a literatura infantil possui, ou seja, que ela é fundamental para a aquisição de conhecimentos, recreação, informação e interação necessários ao ato de ler. De acordo com as idéias acima, percebe-se a necessidade da aplicação coerente de atividades que despertem o prazer de ler, e estas devem estar presentes diariamente na vida das crianças, desde bebês. Conforme Silva (1992, p.57) “bons livros poderão ser presentes e grandes fontes de prazer e conhecimento. Descobrir estes sentimentos desde bebezinhos, poderá ser uma excelente conquista para toda a vida.” Apesar da grande importância que a literatura exerce na vida da criança, seja no desenvolvimento emocional ou na capacidade de expressar melhor suas idéias, em geral, de acordo com Machado (2001), elas não gostam de ler e fazem-no por obrigação. Mas afinal, por que isso acontece? Talvez seja pela falta de exemplo dos pais ou dos professores, talvez não. O que se percebe é que a literatura, bem como toda a cultura criadora e questionadora, não está sendo explorada como deve nas escolas e isto ocorre em grande parte, pela pouca informação dos professores. A formação acadêmica, infelizmente não dá ênfase à leitura e esta é uma situação contraditória, pois segundo comentário de Machado (2001, p.45) “não se contrata um instrutor de natação que não sabe nadar, no entanto, as salas de aula brasileira estão repletas de pessoas que apesar de não ler, tentam ensinar”. Existem dois fatores que contribuem para que a criança desperte o gosto pela leitura: curiosidade e exemplo. Neste sentido, o livro deveria ter a importância de uma televisão dentro do lar. Os pais deveriam ler mais para os filhos e para si próprios. No entanto, de acordo com a UNESCO (2005) somente 14% da população tem o hábito de ler, portanto, pode-se afirmar que a sociedade brasileira não é leitora. Nesta perspectiva, cabe a escola desenvolver na criança o hábito de ler por prazer, não por obrigação. Contextualizando Literatura Infantil Os primeiros livros direcionados ao público infantil, surgiram no século XVIII. Autores como La Fontaine e Charles Perrault escreviam suas obras, enfocando principalmente os contos de fadas. De lá pra cá, a literatura infantil foi ocupando seu espaço e apresentando sua relevância. Com isto, muitos autores foram surgindo, como Hans Christian Andersen, os irmãos Grimm e Monteiro Lobato, imortalizados pela grandiosidade de suas obras. Nesta época, a literatura infantil era tida como mercadoria, principalmente para a sociedade aristocrática. Com o passar do tempo, a sociedade cresceu e modernizou-se por meio da industrialização, expandindo assim, a produção de livros. A partir daí os laços entre a escola e literatura começam a se estreitar, pois para adquirir livros era preciso que as crianças dominassem a língua escrita e cabia a escola desenvolver esta capacidade. De acordo com Lajolo & Zilbermann, “a escola passa a habilitar as crianças para o consumo das obras impressas, servindo como intermediária entre a criança e a sociedade de consumo”. (2002, p.25) Assim, surge outro enfoque relevante para a literatura infantil, que se tratava na verdade de uma literatura produzida para adultos e aproveitada para a criança. Seu aspecto didático-pedagógico de grande importância baseava-se numa linha moralista, paternalista, centrada numa representação de poder. Era, portanto, uma literatura para estimular a obediência, segundo a igreja, o governo ou ao senhor. Uma literatura intencional, cujas histórias acabavam sempre premiando o bom e castigando o que é considerado mau. Segue à risca os preceitos religiosos e considera a criança um ser a se moldar de acordo com o desejo dos que a educam, podando-lhe aptidões e expectativas. Até as duas primeiras décadas do século XX, as obras didáticas produzidas para a infância, apresentavam um caráter ético-didático, ou seja, o livro tinha a finalidade única de educar, apresentar modelos, moldar a criança de acordo com as expectativas dos adultos. A obra dificilmente tinha o objetivo de tornar a leitura como fonte de prazer, retratando a aventura pela aventura. Havia poucas histórias que falavam da vida de forma lúdica, ou que faziam pequenas viagens em torno do cotidiano, ou a afirmação da amizade centrada no companheirismo, no amigo da vizinhança, da escola, da vida. Essa visão de mundo maniqueísta, calçada no interesse do sistema, passa a ser substituída por volta dos anos 70 e a literatura infantil passa por uma revalorização, contribuída em grande parte pelas obras de Monteiro Lobato, no que se refere ao Brasil. Ela então, se ramifica por todos os caminhos da atividade humana, valorizando a aventura, o cotidiano, a família, a escola, o esporte, as brincadeiras, as minorias raciais, penetrando até no campo da política e suas implicações. Hoje a dimensão de literatura infantil é muito mais ampla e importante. Ela proporciona à criança um desenvolvimento emocional, social e cognitivo indiscutíveis. Segundo Abramovich (1997) quando as crianças ouvem histórias, passam a visualizar de forma mais clara, sentimentos que têm em relação ao mundo. As histórias trabalham problemas existenciais típicos da infância, como medos, sentimentos de inveja e de carinho, curiosidade, dor, perda, além de ensinarem infinitos assuntos. É através de uma história que se pode descobrir outros lugares, outros tempos, outros jeitos de agir e de ser, outras regras, outra ética, outra ótica...É ficar sabendo história, filosofia, direito, política, sociologia, antropologia, etc. sem precisar saber o nome disso tudo e muito menos achar que tem cara de aula (ABRAMOVICH, 1997, p.17) Neste sentido, quanto mais cedo a criança tiver contato com os livros e perceber o prazer que a leitura produz, maior será a probabilidade dela tornar-se um adulto leitor. Da mesma forma através da leitura a criança adquire uma postura crítico-reflexiva,extremamente relevante à sua formação cognitiva. Quando a criança ouve ou lê uma história e é capaz de comentar, indagar, duvidar ou discutir sobre ela, realiza uma interação verbal, que neste caso, vem ao encontro das noções de linguagem de Bakhtin (1992). Para ele, o confrontamento de idéias, de pensamentos em relação aos textos, tem sempre um caráter coletivo, social. O conhecimento é adquirido na interlocução, o qual evolui por meio do confronto, da contrariedade. Assim, a linguagem segundo Bakthin (1992) é constitutiva, isto é, o sujeito constrói o seu pensamento, a partir do pensamento do outro, portanto, uma linguagem dialógica. A vida é dialógica por natureza. Viver significa participar de um diálogo: interrogar, escutar, responder, concordar, etc. Neste diálogo, o homem participa todo e com toda a sua vida: com os olhos, os lábios, as mãos, a alma, o espírito, com o corpo todo, com as suas ações. Ele se põe todo na palavra e esta palavra entra no tecido dialógico da existência humana, no simpósio universal. (BAKHTIN, 1992, p112) E é partindo desta visão da interação social e do diálogo, que se pretende compreender a relevância da literatura infantil, que segundo afirma Coelho (2001, p.17), “é um fenômeno de linguagem resultante de uma experiência existencial, social e cultural.” A leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de construção do significado do texto. Segundo Coelho (2002) a leitura, no sentido de compreensão do mundo é condição básica do ser humano. A compreensão e sentido daquilo que o cerca inicia-se quando bebê, nos primeiros contatos com o mundo. Os sons, os odores, o toque, o paladar, de acordo com Martins (1994) são os primeiros passos para aprender a ler.Ler, no entanto é uma atividade que implica não somente a decodificação de símbolos, ela envolve uma série de estratégias que permite o indivíduo compreender o que lê. Neste sentido, relata os PCN’s (2001, p.54.): Um leitor competente é alguém que, por iniciativa própria, é capaz de selecionar, dentre os trechos que circulam socialmente, aqueles que podem atender a uma necessidade sua. Que consegue utilizar estratégias de leitura adequada para abordá-los de forma a atender a essa necessidade. Assim, pode-se observar que a capacidade para aprender está ligada ao contexto pessoal do indivíduo. Desta forma, Lajolo (2002) afirma que cada leitor, entrelaça o significado pessoal de suas leituras de mundo, com os vários significados que ele encontrou ao longo da história de um livro, por exemplo. O ato de ler então, não representa apenas a decodificação, já que esta não está imediatamente ligada a uma experiência, fantasia ou necessidade do indivíduo. De acordo com os PCN’s (2001) a decodificação é apenas uma, das várias etapas de desenvolvimento da leitura. A compreensão das idéias percebidas, a interpretação e a avaliação são as outras etapas que segundo Bamberguerd (2003, p.23) “fundem-se no ato da leitura”. Desta forma, trabalhar com a diversidade textual, segundo os PCN’s (2001), fazendo com que o indivíduo desenvolva significativamente as etapas de leitura é contribuir para a formação de leitores competentes. A importância de ouvir histórias Ouvir histórias é um acontecimento tão prazeroso que desperta o interesse das pessoas em todas as idades. Se os adultos adoram ouvir uma boa história, um “bom causo”, a criança é capaz de se interessar e gostar ainda mais por elas, já que sua capacidade de imaginar é mais intensa. A narrativa faz parte da vida da criança desde quando bebê, através da voz amada, dos acalantos e das canções de ninar, que mais tarde vão dando lugar às cantigas de roda, a narrativas curtas sobre crianças, animais ou natureza. Aqui, crianças bem pequenas, já demonstram seu interesse pelas histórias, batendo palmas, sorrindo, sentindo medo ou imitando algum personagem. Neste sentido, é fundamental para a formação da criança que ela ouça muitas histórias desde a mais tenra idade. O primeiro contato da criança com um texto é realizado oralmente, quando o pai, a mãe, os avós ou outra pessoa conta-lhe os mais diversos tipos de histórias. A preferida, nesta fase, é a história da sua vida. A criança adora ouvir como foi que ela nasceu, ou fatos que aconteceram com ela ou com pessoas da sua família. À medida que cresce, já é capaz de escolher a história que quer ouvir, ou a parte da história que mais lhe agrada. É nesta fase, que as histórias vão tornando-se aos poucos mais extensas, mais detalhadas. A criança passa a interagir com as histórias, acrescenta detalhes, personagens ou lembra de fatos que passaram despercebidos pelo contador. Essas histórias reais são fundamentais para que a criança estabeleça a sua identidade, compreender melhor as relações familiares. Outro fato relevante é o vínculo afetivo que se estabelece entre o contador das histórias e a criança. Contar e ouvir uma história aconchegado a quem se ama é compartilhar uma experiência gostosa, na descoberta do mundo das histórias e dos livros. Algum tempo depois, as crianças passam a se interessar por histórias inventadas e pelas histórias dos livros, como: contos de fadas ou contos maravilhosos, poemas, ficção, etc. Têm nesta perspectiva, a possibilidade de envolver o real e o imaginário que de acordo com Sandroni & Machado (1998, p.15) afirmam que “os livros aumentam muito o prazer de imaginar coisas. A partir de histórias simples, a criança começa a reconhecer e interpretar sua experiência da vida real”. É importante contar histórias mesmo para as crianças que já sabem ler, pois segundo Abramovich (1997, p.23) “quando a criança sabe ler é diferente sua relação com as histórias, porém, continua sentindo enorme prazer em ouvi-las”. Quando as crianças maiores ouvem as histórias, aprimoram a sua capacidade de imaginação, já que ouvi-las pode estimular o pensar, o desenhar, o escrever, o criar, o recriar. Num mundo hoje tão cheio de tecnologias, onde as informações estão tão prontas, a criança que não tiver a oportunidade de suscitar seu imaginário, poderá no futuro, ser um indivíduo sem criticidade, pouco criativo, sem sensibilidade para compreender a sua própria realidade. Portanto, garantir a riqueza da vivência narrativa desde os primeiros anos de vida da criança contribui para o desenvolvimento do seu pensamento lógico e também de sua imaginação,que segundo Vigotsky (1992, p.128) caminham juntos: “a imaginação é um momento totalmente necessário, inseparável do pensamento realista.”. Neste sentido, o autor enfoca que na imaginação a direção da consciência tende a se afastar da realidade. Esse distanciamento da realidade através de uma história por exemplo, é essencial para uma penetração mais profunda na própria realidade: “afastamento do aspecto externo aparente da realidade dada imediatamente na percepção primária possibilita processos cada vez mais complexos, com a ajuda dos quais a cognição da realidade se complica e se enriquece. (VIGOTSKY, 1992, p.129) ”. O contato da criança com o livro pode acontecer muito antes do que os adultos imaginam. Muitos pais acreditam que a criança que não sabe ler não se interessa por livros, portanto não precisa ter contato com eles. O que se percebe é bem ao contrário. Segundo Sandroni & Machado (2000, p.12) “a criança percebe desde muito cedo, que livro é uma coisa boa, que dá prazer”. As crianças bem pequenas interessam-se pelas cores, formas e figuras que os livros possuem e que mais tarde, darão significados a elas, identificando-as e nomeando-as. É importante que o livro seja tocado pela criança, folheado, de forma que ela tenha um contato mais íntimo com o objeto do seu interesse.A partir daí, ela começa a gostar dos livros, percebe que eles fazem parte de um mundo fascinante, onde a fantasia apresenta-se por meio de palavras e desenhos. De acordo com Sandroni & Machado (1998, p.16) “o amor pelos livros não é coisa que apareça de repente”. É preciso ajudar a criança a descobrir o que eles podem oferecer. Assim, pais e professores têm um papel fundamental nesta descoberta: serem estimuladores e incentivadores da leitura. A literatura e os estágios psicológicos da criança Durante o seu desenvolvimento, a criança passa por estágios psicológicos que precisam ser observados e respeitados no momento da escola de livros para ela. Essas etapas não dependem exclusivamente de sua idade, mas de acordo com Coelho (2002) do seu nível de amadurecimento psíquico, afetivo e intelectual e seu nível de conhecimento e domínio do mecanismo da leitura. Neste sentido, é necessária a adequação dos livros às diversas etapas pelas quais a criança normalmente passa. Existem cinco categorias que norteiam as fases do desenvolvimento psicológico da criança: o pré-leitor, o leitor iniciante, o leitor-em-processo, o leitor fluente e o leitor crítico. O pré-leitor: categoria que abrange duas fases.Primeira infância (dos 15/17 meses aos 3 anos) Nesta fase a criança começa a reconhecer o mundo ao seu redor através do contato afetivo e do tato. Por este motivo ela sente necessidade de pegar ou tocar tudo o que estiver ao seu alcance. Outro momento marcante nesta fase é a aquisição da linguagem, onde a criança passa a nomear tudo a sua volta. A partir da percepção da criança com o meio em que vive, é possível estimulá-la oferecendo-lhe brinquedos, álbuns, chocalhos musicais, entre outros. Assim, ela poderá manuseá-los e nomeá-los e com a ajuda de um adulto poderá relacioná-los propiciando situações simples de leitura. Segunda infância (a partir dos 2/3 anos) É o início da fase egocêntrica. Está mais adaptada ao meio físico e aumenta sua capacidade e interesse pela comunicação verbal. Como interessa-se também por atividades lúdicas, o “brincar”com o livro será importante e significativo para ela. Nesta fase, os livros adequados, de acordo com Abramovich (1997) devem apresentar um contexto familiar, com predomínio absoluto da imagem que deve sugerir uma situação. Não se deve apresentar texto escrito, já que é através da nomeação das coisas que a criança estabelecerá uma relação entre a realidade e o mundo dos livros. Livros que propõem humor, expectativa ou mistério são indicados para o pré-leitor. A técnica da repetição ou reiteração de elementos são segundo Coelho (2002, p.34) “favoráveis para manter a atenção e o interesse desse difícil leitor a ser conquistado”. O leitor iniciante (a partir dos 6/7 anos) Essa é a fase em que a criança começa a apropriar-se da decodificação dos símbolos gráficos, mas como ainda encontra-se no início do processo, o papel do adulto como “agente estimulador” é fundamental. Os livros adequados nesta fase devem ter uma linguagem simples com começo, meio e fim. As imagens devem predominar sobre o texto. As personagens podem ser humanas, bichos, robôs, objetos, especificando sempre os traços de comportamento, como bom e mau, forte e fraco, feio e bonito. Histórias engraçadas, ou que o bem vença o mal atraem muito o leitor nesta fase. Indiferentemente de se utilizarem textos como contos de fadas ou do mundo cotidiano, de acordo com Coelho (ibid, p. 35) “eles devem estimular a imaginação, a inteligência, a afetividade, as emoções, o pensar, o querer, o sentir”. O leitor-em-processo (a partir dos 8/9anos) A criança nesta fase já domina o mecanismo da leitura. Seu pensamento está mais desenvolvido, permitindo-lhe realizar operações mentais. Interessa-se pelo conhecimento de toda a natureza e pelos desafios que lhes são propostos. O leitor desta fase tem grande atração por textos em que haja humor e situações inesperadas ou satíricas. O realismo e o imaginário também agradam a este leitor. Os livros adequados a esta fase devem apresentar imagens e textos, estes, escritos em frases simples, de comunicação direta e objetiva. De acordo com Coelho (2002) deve conter início, meio e fim. O tema deve girar em torno de um conflito que deixará o texto mais emocionante e culminar com a solução do problema. O leitor fluente (a partir dos 10/11 anos) O leitor fluente está em fase de consolidação dos mecanismos da leitura. Sua capacidade de concentração cresce e ele é capaz de compreender o mundo expresso no livro. Segundo Coelho (2002) é a partir dessa fase que a criança desenvolve o “pensamento hipotético dedutivo” e a capacidade de abstração. Este estágio, chamado de pré-adolescência, promove mudanças significativas no indivíduo. Há um sentimento de poder interior, de ver-se como um ser inteligente, reflexivo, capaz de resolver todos os seus problemas sozinhos. Aqui há uma espécie de retomada do egocentrismo infantil, pois assim como acontece com as crianças nesta fase, o pré-adolescente pode apresentar um certo desequilíbrio com o meio em que vive. O leitor fluente é atraído por histórias que apresentem valores políticos e éticos, por heróis ou heroínas que lutam por um ideal. Identificam-se com textos que apresentam jovens em busca de espaço no meio em que vivem, seja no grupo, equipe, entre outros.É adequado oferecer a esse tipo de leitor histórias com linguagem mais elaborada. As imagens já não são indispensáveis, porém ainda são um elemento forte de atração. Interessam-se por mitos e lendas, policiais, romances e aventuras. Os gêneros narrativos que mais agradam são os contos, as crônicas e as novelas. O leitor crítico (a partir dos 12/13 anos) Nesta fase é total o domínio da leitura e da linguagem escrita. Sua capacidade de reflexão aumenta, permitindo-lhe a intertextualização. Desenvolve gradativamente o pensamento reflexivo e a consciência crítica em relação ao mundo. Sentimentos como saber, fazer e poder são elementos que permeiam o adolescente. O convívio do leitor crítico com o texto literário, segundo Coelho (2002, p.40) “deve extrapolar a mera fruição de prazer ou emoção e deve provocá-lo para penetrar no mecanismo da leitura”. O leitor crítico continua a interessar-se pelos tipos de leitura da fase anterior, porém, é necessário que ele se aproprie dos conceitos básicos da teoria literária. De acordo com Coelho (ibid, p.40) a literatura é considerada a arte da linguagem e como qualquer arte exige uma iniciação. Assim, há certos conhecimentos a respeito da literatura que não podem ser ignorados pelo leitor crítico. Conclusão Desenvolver o interesse e o hábito pela leitura é um processo constante, que começa muito cedo, em casa, aperfeiçoa-se na escola e continua pela vida inteira. Existem diversos fatores que influenciam o interesse pela leitura. O primeiro e talvez mais importante é determinado pela “atmosfera literária” que, segundo Bamberguerd (2000, p.71) a criança encontra em casa. A criança que houve histórias desde cedo, que tem contato direto com livros e que seja estimulada, terá um desenvolvimento favorável ao seu vocabulário, bem como a prontidão para a leitura. De acordo com Bamberguerd (2000) a criança que lê com maior desenvoltura se interessa pela leitura e aprende mais facilmente, neste sentido, a criança interessada em aprender se transforma num leitor capaz. Sendo assim, pode-se dizer que a capacidade de ler está intimamente ligada a motivação. Infelizmente são poucos os pais que se dedicam efetivamente em estimular esta capacidade nos seus filhos. Outro fator que contribui positivamente em relação à leitura é a influência do professor. Nesta perspectiva, cabe ao professor desempenhar um importante papel: o de ensinar a criança a ler e a gostar de ler. Professores que oferecem pequenas doses diárias de leitura agradável, sem forçar, mas com naturalidade, desenvolverão na criança um hábito que poderá acompanhá-la pela vida afora. Para desenvolver um programa de leitura equilibrado, que integre os conteúdos relacionados ao currículo escolar e ofereça uma certa variedade de livros de literatura como contos, fábulas e poesias, é preciso que o professor observe a idade cronológica da criança e principalmente o estágio de desenvolvimento de leitura em que ela se encontra. De acordo com Sandroni & Machado (1998, p.23) “o equilíbrio de um programa de leitura depende muito mais do bom senso e da habilidade do professor que de uma hipotética e inexistente classe homogênea”. Assim, as condições necessárias ao desenvolvimento de hábitos positivos de leitura, incluem oportunidades para ler de todas as formas possíveis. Freqüentar livrarias, feiras de livros e bibliotecas são excelentes sugestões para tornar permanente o hábito de leitura. Num mundo tão cheio de tecnologias em que se vive, onde todas as informações ou notícias, músicas, jogos, filmes, podem ser trocados por e-mails, cd’s e dvd’s o lugar do livro parece ter sido esquecido. Há muitos que pensem que o livro é coisa do passado, que na era da Internet, ele não tem muito sentido. Mas, quem conhece a importância da literatura na vida de uma pessoa, quem sabe o poder que tem uma história bem contada, quem sabe os benefícios que uma simples história pode proporcionar, com certeza haverá de dizer que não há tecnologia no mundo que substitua o prazer de tocar as páginas de um livro e encontrar nelas um mundo repleto de encantamento. Se o professor acreditar que além de informar, instruir ou ensinar, o livro pode dar prazer, encontrará meios de mostrar isso à criança. E ela vai se interessar por ele, vai querer buscar no livro esta alegria e prazer. Tudo está em ter a chance de conhecer a grande magia que o livro proporciona. Enfim, a literatura infantil é um amplo campo de estudos que exige do professor conhecimento para saber adequar os livros às crianças, gerando um momento propício de prazer e estimulação para a leitura. Trabalho científico apresentado à Universidade Estadual Vale do Acaraú - UVA, como requisito parcial para a obtenção do Título de graduada em Licenciatura Específica em Português. ELINE FERNANDES DE CASTRO Impulsionar publicação

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Escritoras dizem que livros de ficção ajudam a superar doenças

http://www.blogdogaleno.com.br/2017/01/12/escritoras-dizem-que-livros-de-ficcao-ajudam-a-superar-doencas André Biernath - Saúde Abril - 08/01/2017 Elas se conheceram enquanto estudavam literatura na Universidade de Cambridge, no Reino Unido, e, desde então, tornaram-se amigas inseparáveis. Entre uma indicação de livro e outro, Ella e Susan criaram o serviço de biblioterapia, em que ficções são prescritas para tratar os mais diferentes males — de câncer e perna quebrada a falta de entusiasmo e enjoo matinal. O resultado desse trabalho é o recém-lançado Farmácia Literária (Verus Editora), que reúne prescrições de leituras para tudo o que é chateação. Fizemos uma entrevista exclusiva por e-mail com a dupla, que você confere abaixo. E não perca: na edição de janeiro de SAÚDE, que chega às bancas na semana que vem, você poderá conferir uma reportagem completa sobre o livro. A biblioterapia é bem conhecida e aceita no Reino Unido? Quando nós dizemos que somos biblioterapeutas, a maioria das pessoas dizem: “O que é isso?”. Então, não, o conceito é bem novo por aqui também. A palavra foi retirada do Grego Antigo e significa “curar por meio dos livros”. O conceito é o mesmo desde aquela época. Mas nós gostamos de pensar que somos as primeiras a trazê-lo para o uso contemporâneo. É interessante notar a forma como as pessoas reagem quando explicamos. Algumas simplesmente não entendem (provavelmente elas não leem ficção). Já as que compreendem geralmente dizem para nós: “Por que alguém não pensou nisso antes?” É como se todos soubéssemos subconscientemente que, além do entretenimento, mudamos quando lemos romances. Só não tínhamos um nome para isso. Outro dia nós estávamos dando uma palestra na França e, no final, um sujeito chegou até a gente e disse: “Vocês deram sentido para minha vida. Eu li ‘biblioterapeuticamente’ durante toda a minha vida e não sabia disso”. Vocês acham que é possível implementar um programa de biblioterapia em hospitais e asilos? Como uma iniciativa dessas poderia beneficiar os pacientes? Sim, estudos estão mostrando que ler pode ser extremamente efetivo para estresse, ansiedade e até mesmo para casos de depressão moderada e falta de confiança. Nós amaríamos ver uma cópia de Farmácia Literária na sala de espera de todos os especialistas. No Reino Unido, os médicos da família podem se valer de um esquema de prescrição de livros. A ideia surgiu a partir da Agência de Leitura, uma organização não governamental que seleciona obras para pacientes depressivos. Por que vocês resolveram prescrever apenas livros de ficção? Como eles podem ajudar alguém a superar seus problemas? De certa maneira, nós estamos reagindo à expansão dos livros de autoajuda que ocorreu durante os anos 1990. Nós sentimos que a literatura era uma fonte poderosa subutilizada. E olha que é difícil pensar em problemas da vida que não tenham sido experimentados por algum personagem literário de maneira bastante intensa. Na ficção, nós encontramos a experiência humana em sua maneira mais profunda e intensa. São fatos que não são explorados como deveriam nas interações do dia a dia. Ler sobre personagens que passaram ou sentiram coisas que estou vivenciando agora nos deixa menos solitários. E, claro, outros livros nos mostram como olhar sob diferentes ângulos, além de nos inspirar a tomarmos atitudes que são grandes. Existe uma relação entre a “teoria da mente” e ler ficções literárias, de acordo com estudos recentes. A leitura desenvolve nossa capacidade de empatia, de nos colocar no lugar do outro. Pois é isso que fazemos nos livros: ver as coisas de outra perspectiva. Mas vocês não acham que outros estilos de livros — como as biografias e os de autoajuda — não poderiam ser uma importante ferramenta para tratar algumas doenças? Susan Elderkin: Certamente existe um espaço para os livros de autoajuda. Eu me lembro de ler um deles nos anos 1990 e ficar bem inspirada. Mas ter contato com a coragem de Atticus Finch, de O Sol é para Todos [escrito por Haper Lee] foi o que realmente ficou comigo por muitos e muitos anos. Ele sentia o medo e fazia as coisas mesmo assim. Eu não lembro praticamente nada daquele livro de autoajuda. Mas eu nunca me esquecerei de como Atticus Finch permaneceu firme naquilo que acreditava, em oposição a toda uma comunidade sedenta por sangue. Biografias também podem ser bastante inspiradoras. Mas nós geralmente já conhecemos como nosso herói de carne e osso é — mesmo que ele seja uma pessoa como Gandhi, Steve Jobs ou Cristiano Ronaldo. É muito mais difícil achar a ficção certa, ou seja, saber qual delas vai me ajudar a superar um relacionamento malsucedido ou qual me dará o empurrão necessário para largar o emprego em que estou preso por anos. A literatura — a melhor literatura — é sobre como navegamos nosso próprio caminho por meio dos obstáculos da vida. Seu território é a própria vida e a forma como lidamos com o dia a dia. Nós não podemos imaginar passar toda a existência sem romances e histórias que nos ajudem a situar quem somos. O que importa para nós é explorar os diferentes significados do que é ser humano. Uma pergunta pessoal: qual livro foi o responsável pelo amor pela leitura que vocês possuem? Susan Elderkin: Para mim foi O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa e as aventuras subsequentes que se passam em Nárnia na famosa série escrita por C.S. Lewis. Eu me lembro de, quando criança, ler escondida atrás da porta de meu quarto, porque torcia para que ninguém me encontrasse e me fizesse descer para o jantar. Eu viajei para muitos universos por meio desse livro. Nárnia foi real e vívida para mim mais do que qualquer coisa que experimentei. As emoções que me fez sentir foram fortes. Anos depois, quando eu era estudante na Universidade de Cambridge — onde conheci Ella nas aulas de literatura inglesa —, havia um estacionamento onde fomos andar de bicicleta várias vezes. Eu sempre fui meio mística em relação àquele lugar. Esperava o momento de acender a minha lanterna na névoa e, no meio do caminho, encontrar sem querer o poste de Nárnia e o Mr. Tummus, o fauno que guia Lucy nas primeiras incursões pela nova terra. Eu pensava que todo mundo imaginava a mesma coisa nesse lugar. Eu amo saber que a leitura é uma experiência compartilhada como esta. Pense como é para a geração que viveu com Harry Potter. Todos eles cresceram conhecendo as mesmas pessoas, passeando pela mesma escola, por meio dos meios livros. Eles dividiram uma cultura! Ella Berthoud: Foi Os 101 Dálmatas, de Dodie Smith, que me encantou. Foi o primeiro livro que me lembro de ler. Eu fiquei presa naquela narrativa trágica do sequestro dos filhotes. As descrições vívidas do chá e da torrada e o fogo que fazem parte do livro ficaram comigo para sempre. Essa ainda é, até os dias de hoje, a minha leitura de conforto preferida. A edição brasileira do livro Farmácia Literária inclui alguns dos mais importantes escritores da língua portuguesa, como Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Eça de Queiróz e José Saramago. Qual a importância de adaptar para cada país? Nosso livro já foi publicado em mais de 20 países e nós sabíamos desde o começo que seria absolutamente vital que cada edição abraçasse a literatura local. Precisávamos incluir os títulos que formaram e moldaram a psique da nação ao longo das gerações. Leitores contemporâneos precisam ver o mundo que eles conhecem refletido em nosso livro, na linguagem que é a mais confortável possível. Então nós trabalhamos para que cada edição fosse mudada em 25 a 30% com novas sugestões de leituras e, em alguns casos, novas curas. Alguns novelistas que escrevem em português já faziam parte do Farmácia Literária original. José Saramago, que nós duas adoramos, e também Fernando Pessoa, cujo Livro do Desassossego é a solução para a insônia. Claro, nenhum desrespeito pelo Pessoa. Nós amamos seu ritmo compassado, quase soporífico. A coisa mais maravilhosa sobre esse livro é que não há problema se você dormir no meio de uma sentença ou se você se esquecer onde parou na noite anterior. É um texto que perdoa e ama de um jeito que te coloca numa espécie de transe. E não é tão excitante. Logo, é uma ótima coisa para passar os olhos se você não consegue pregá-los. Eu li Farmácia Literária inteiro e uma das coisas que mais me chamou a atenção foi o estilo leve e humorístico. Vocês acham que essa forma de escrever ajuda a cativar os leitores? O livro está cheio de piadas, provavelmente por causa de nossa amizade. Como toda boa amizade, ela está baseada num senso de humor compartilhado. Nós amamos falar sobre literatura e sempre rimos muito juntas — o livro apenas reflete isso. Em alguns trechos, só escrevemos para fazer a outra gargalhar. Nós acreditamos que o bom humor é importante a toda boa escrita. Os melhores novelistas usavam o humor, mesmo que suas histórias fossem sobre algo triste, sério ou terrível. O humor pode e deve coexistir com a escuridão.

19 livros para ler pelo menos uma vez em 2017

Cada história contida em um livro nos ensina a lidar com diferentes fases e momentos de nossas vidas. Os livros têm o poder de nos auxiliar a enxergar sempre além e nos dão a oportunidade de vivenciar experiências únicas, as quais não teríamos oportunidade de viver sem lê-los. Confira 19 livros, sobre diferentes temas e de diferentes estilos, que você deve ler pelo menos uma vez em sua vida. Identifique aquele que está mais relacionado com seu momento atual e boa leitura! 1. O CAÇADOR DE PIPAS, DE KHALED HOSSEINI A história de Amir, um garoto afegão que se sente culpado por ter traído seu melhor amigo, tem como cenário uma série de acontecimentos políticos, que começa com a queda da monarquia do Afeganistão em 1973, golpe de estado comunista em 1978, invasão soviética em 1979, a migração de refugiados para o Paquistão e para os EUA e a implantação do regime Militar pelos Talibã. 2. NUMBER THE STARS, DE LOIS LOWRY O livro mostra que diferenças culturais e religiosas não importam entre amigos. Number the Stars conta a história de Annemarie Yohansen, uma menina dinamarquesa que cresceu na Segunda Guerra Mundial com sua melhor amiga, Ellen, que é judaica. Quando Annemarie descobre o que os nazistas estão fazendo contra o povo judeu, faz de tudo para proteger Ellen e toda comunidade judaica. 3. ORGULHO E PRECONCEITO, DE JANE AUSTEN A história mostra como a personagem Elizabeth Bennet lida com os problemas relacionados à educação, cultura, moral e casamento na sociedade aristocrática do início do século XIX, na Inglaterra. Orgulho e Preconceito, uma das obras mais duradouras da literatura inglesa, ensina a superar diferenças e a encontrar a alegria em tudo o que vivemos. 4. THE OUTSIDERS, DE SUSAN E. HINTON Hilton escreveu The Outsiders quando tinha apenas 16 anos visando apresentar a realidade de um adolescente americano do século 20. O livro acompanha dois grupos rivais, os Greasers e os Socs, que são divididos por suas condições socioeconômicas e nos lembra que a transição para a vida adulta nunca foi uma tarefa fácil. 5. LITTLE WOMEN, DE LOUISA MAY ALCOTT O livro conta a história de quatro irmãs crescendo durante a Guerra Civil Americana, entre 1861 e 1865, e como elas aprenderam a superar juntas as dificuldades da vida. Ensina, acima de tudo, sobre a importância da união familiar. 6. A MENINA E O PORQUINHO, DE E. B. WHITE O livro infantil fala sobre um porco chamado Wilbur e sua amizade com uma aranha chamada Charlotte. Publicado em 1952, é uma lição para as crianças e um lembrete para os mais velhos da beleza da natureza, do ciclo da vida e da importância de lembrar que cada criatura tem seu lugar na terra. 7. JANE EYRE, DE CHARLOTTE BRONTË A obra conta as experiências de sua heroína homônima, Jane Eyre. O livro contém elementos de crítica social, com um forte senso de moralidade, mas não deixa de ser considerado a frente do seu tempo, dado o carácter individualista da personagem e a exploração do classicismo, religião e feminismo. 8. POR FAVOR, NÃO MATEM A COTOVIA, DE HARPER LEE O livro é baseado nas memórias familiares da autora, assim como em um evento ocorrido próximo a sua cidade natal, em 1936, quando ela tinha dez anos de idade. Conhecido pela sua vivacidade e humor, discute assuntos sérios como estupro, desigualdade racial e as injustiças do sistema jurídico. 9. HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL, DE J. K. ROWLING Leia todos os livros, mas comece a série pelo primeiro deles. A história de Harry Potter apresenta a importância da amizade, ensina a como lidar com a perda, mostra o triunfo do bem sobre o mal e como devemos enfrentar nossos problemas internos. 10. O JARDIM SECRETO, DE FRANCES HODGSON BURNETT É um clássico atemporal sobre a beleza da natureza, o poder de cura do amor e a crença na magia. O livro é considerado a mais importante obra de Burnett, pois é a primeira obra na qual um garoto, Dickon, e uma garota, Mary Lennox, são os personagens principais. 11. O LEÃO, A FEITICEIRA E O GUARDA-ROUPA, DE CLIVE STAPLES LEWIS Quando Peter, Susan, Edmund e Lucy encontram a terra mágica de Nárnia, fazendo amizades com animais falantes e lutando contra o mal, descobrem o verdadeiro significado dos laços familiares e o valor da coragem. Mais do que uma história sobre um mundo inteiro escondido em um armário, a obra, que se passa durante a Segunda Guerra Mundial, exalta Nárnia como a esperança de um futuro melhor. 12. ANNE OF GREEN GABLES, DE L. M. MONTGOMERY Quando Anne Shirley, órfã de 11 anos, vai morar com uma nova família, descobre que houve algum erro: eles queriam adotar um menino. Enquanto essa descoberta deixa Anne insegura, com medo de não ser amada, você verá como a imaginação e o coração bondoso de uma criança pode te tocar. Uma história emocionante de amor e amizade, que nos lembra que a vida pode nos apresentar boas surpresas, mesmo quando acontecem coisas que não estávamos esperando. 13. THE GIRL WHO FELL FROM THE SKY, DE HEIDI W. DURROW Após uma tragédia, a menina Rachel vai morar com sua avó em um bairro predominantemente branco. Com sua pele negra e seus olhos azuis, a garota enfrenta o desafio de aprender a viver em um mundo preconceituoso. A obra discute a construção cultural e nos desafia a confrontar nossos prejulgamentos. 14. O DIÁRIO DE BRIDGET JONES, DE HELEN FIELDING O livro tem sido um símbolo do feminismo para mulheres de todo o mundo. Humorística e reconfortante, a obra apresenta comentários cômicos, mas críticos sobre o significado de ser mulher na sociedade atual. 15. A CABANA DO PAI TOMÁS, DE HARRIET BEECHER STOWE O livro apresenta o conflito vivido entre escravos norte-americanos e proprietários de terras dos Estados Unidos, mostrando como foi horrível o período de escravidão. A obra é uma história de fé, coragem e luta pela liberdade. 16. ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS, DE LEWIS CARROLL O livro infantil é um conto de magia que gira em torno de Alice e um mundo imaginário. A história, que encanta crianças e adultos com seu discurso entre o real e o faz de conta, pode ser interpretada de diversas maneiras. Uma delas afirma que a narrativa representa a adolescência, com uma entrada inesperada, as mudanças, confusões e transformações que aparecem com o desenrolar da trama. 17. O PEQUENO PRÍNCIPE, DE ANTOINE DE SAINT-EXUPÉRY Um dos livros mais traduzidos do mundo, a obra conta a história de um garoto que cai de um asteroide na Terra quando estava buscando entender a humanidade. Durante sua viagem, ele encontra uma série de personagens, que o auxiliam a compreender o poder transformador da amizade e da confiança. 18. O MUNDO MÁGICO DE OZ, DE L. FRANK BAUM Um clássico sobre aventura e magia, o livro conta a história de Dorothy, seu cão Toto e os personagens que encontram durante o caminho para a Cidade das Esmeraldas, como o Espantalho e o Leão Covarde. Juntos, viajam para encontrar o famoso Mágico em busca de conhecimento, amor e coragem. 19. A CULPA É DAS ESTRELAS, DE JOHN GREEN A história tocante aborda a vida de Hazel, uma adolescente com câncer que convive com outros jovens em seu grupo de apoio à doença – juntos, eles compartilham seus medos e alegrias. O livro consegue capturar a doença com ternura e autenticidade, lembrando os leitores que o amor, a amizade e a fé transcendem tudo, inclusive a própria morte.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

BIBLIOTECA PÚBLICA: AMBIGÜIDADE, CONFORMISMO E AÇÃO GUERRILHEIRA DO BIBLIOTECÁRIO

(Publicado Originalmente em Ensaios APB, n.15, fev. 1995.) "Caminhando e cantando e seguindo a canção." Esta frase, por demais conhecida, se retirada do texto e do contexto em que foi idealizada, propicia duas conotações: conformista e revolucionária. A primeira, conformista, fundamenta-se na concepção de que quem segue não possui idéias próprias, não faz história. Seguir, acompanhando a canção formulada e imposta por outros, significa alienação, conformismo e, pior, reprodução de mensagens e idéias que quase sempre não são próprias. A segunda conotação, a revolucionária, apresenta-se a partir da própria idéia de movimento, de busca, de procura. A canção seguida representa o protesto de uma maioria subjugada, quase sem possibilidades de exteriorizar sua discordância e insatisfação ante os rumos de uma história a cujos destinos não lhe é facultado interferir. Uma revolução - ou, quem sabe, apenas algumas reformas - que se utiliza de pequenas brechas, de pequenas frestas dentro de um sistema aparentemente infalível e indestrutível; uma revolução que, a primeira vista, se esgota e tem seus limites em uma faixa de protesto ou em canções e palavras de ordens de uma trupe momentânea. Da mesma forma, longe de seu contexto, o termo Biblioteca Pública também possibilita as mesmas duas conotações: a conformista e a revolucionária. A Biblioteca Pública é normalmente entendida pela sociedade como conformista. A literatura da área de Biblioteconomia, como será apresentado e confirmado no transcorrer deste trabalho, insiste na necessidade de modificarmos a forma como o bibliotecário e a biblioteca são vistos e reconhecidos pela sociedade: verdadeiro estereótipo do profissional e da instituição. Infelizmente, no entanto, a alteração desse estereótipo não é tão simples e fácil de se concretizar, já que a atuação do profissional bibliotecário está restrita, quase que exclusivamente, à guarda e preservação de registros bibliográficos do conhecimento humano, não atendendo, assim, aos anseios, reclamos e necessidades da sociedade, nem cumprindo uma função reconhecidamente social. A observação e interesse que tivemos e temos como profissional da área, nos possibilita afirmar que o quadro apresentado acima se reproduz em grande parte ou, sendo mais enfático, talvez na maioria das bibliotecas públicas brasileiras. O conformismo da Biblioteca Pública estaria evidenciado, assim, através dos trabalhos desenvolvidos - ou, quem sabe, dos trabalhos não desenvolvidos - pelos profissionais que nela atuam. Explicando melhor: o conformismo deve ser entendido, no caso específico da Biblioteca Pública, como a passividade de sua atuação, como o aceitar ser um mero instrumento ideológico que apenas transmite e reproduz informações de interesses destoantes aos das classes populares. Por demais conhecida é a imagem que a sociedade tem do profissional bibliotecário: uma velha senhora, de coque, óculos na ponta do nariz, livro aberto nas mãos e que, autoritariamente, aponta - dedo em riste - para os catálogos quando solicitada a atender um usuário. Parece-nos que tal imagem, repleta de símbolos, permite análises que podem corroborar com a idéia de conformismo da Biblioteca Pública. Antes, porém, é importante enfatizar que Biblioteca Pública e Bibliotecário estão estreitamente relacionados, formando um todo em que a estrutura e o profissional contribuem, cada um com sua parcela e com suas especificidades, para a formação de uma única imagem que, enfocando um ou outro, integra-os no mesmo estereótipo. A análise da forma como o profissional é visto pela sociedade pode começar pela pessoa representada como bibliotecária: normalmente do sexo feminino e idosa. O mercado de trabalho reserva ou oferece para a mulher, espaços definidos e limitados principalmente ao comércio e aos serviços. Quando aceita nos espaços considerados produtivos, identificados com a geração e produção de mercadorias, os cargos ocupados quase sempre abrangem funções onde a decisão está excluída. Às mulheres são oferecidas ocupações onde o que prevalece é a subordinação, o auxílio, a mera cooperação. No sistema capitalista, o não-produtivo é considerado periférico, relegado a um plano secundário e, evidentemente, as pessoas que nele atuam além de receberem baixos salários, revestem-se de um status social inferior. A biblioteca representaria, então, para a sociedade, já que a mulher é considerada adequada e apta a exercer as funções demandadas por ela, como um espaço não-produtivo, um local de importância menor e cujos produtos oferecidos não fazem parte dos instrumentos concebidos como fundamentais e necessários para um desempenho que corresponda às exigências de uma sociedade capitalista. Seguindo o mesmo raciocínio, a bibliotecária idosa, velha, também está relacionada à forma como o velho é entendido e, principalmente, tratado nesta sociedade. Ele ou ela nada produzem, pois seus corpos não estão mais aptos a exercerem as funções que a sociedade necessita. A experiência, advogada como produto de toda uma existência, é dispensável quando as tarefas necessárias para a manutenção da sociedade industrial são rotineiras, mecânicas e exaustivas, exigindo quase que exclusivamente um vigor físico e uma resistência que o velho não mais pode oferecer. Considerados como um estorvo social, os velhos apenas são motivo de preocupação e fazem parte do interesse da sociedade quando preenchem os espaços, travestidos em números, dos relatórios de uma previdência social ou quando abarrotam os guichês dos hospitais em busca da recuperação de uma saúde perdida e deixada entre o maquinário de uma sociedade que alugou sua mão de obra em troca de um mísero salário. O bibliotecário, ou melhor, a bibliotecária é concebida como uma velha, pois improdutiva; guardiå da memória e da experiência que de nada servem; fiscal de um perdido passado que não contribui para as exigências e demandas atuais; dona de um espaço frio e silencioso que antecipa um inexorável mausoléu e que interessa apenas àqueles que já convivem com o sentimento da morte. A bibliotecária seria, assim, aos olhos da sociedade, a velha professora que receita antigas lições e professa valores que o homem de hoje rejeita. Quem preconiza a manutenção e a preservação de antigos valores, deslocados das relações e dos interesses de uma sociedade em constante mudança, não deve ser entendida como útil socialmente. Pensando dessa forma, compreende-se a razão do penteado em forma de coque presente no estereótipo do bibliotecário. O livro aberto nas mãos da bibliotecária idosa permite uma análise também vinculada à improdutividade. A leitura, principalmente durante o período de trabalho, está ligada à idéia de ociosidade. O espaço adequado para se usufruir dos prazeres da leitura é aquele dedicado ao lazer; são os pequenos intervalos que o sistema de produção oferece para que seja utilizado pelo indivíduo. Mesmo assim, a leitura enfrenta inúmeros concorrentes que disputam esses breves intervalos. A leitura, na imagem estereotipada, está adequada ao velho, pois é considerada como uma atividade passiva, sem dinamismo, não exigindo movimentos físicos, opondo a leitura à explosão da aeróbica. É provável o uso do livro nas inúmeras academias que proliferam pelas cidades, mas utilizado como instrumento e apoio de exercícios, auxiliando àqueles que pulam, suam e esperneiam na busca ansiosa de um vistoso porte atlético. Nesses casos, vale mais o peso do livro do que seu conteúdo. Em breve, talvez, os confusos balconistas de livrarias estarão se defrontando com insólitos pedidos: livros com 2, 3, 4, 5 ou mais quilos. A exemplo da velha bibliotecária, o livro também se reveste, do ponto de vista da sociedade, de inutilidade, de coisa passada, merecedor de um espaço nas prateleiras ao lado do pó que o envolve e que atesta sua incapacidade em responder às exigências de um mundo em constante mudança. Biblioteca, livro e velho se condensam, se integram e formam uma única entidade, indissociável, além de afastada dos interesses e necessidades da sociedade capitalista. A relação biblioteca/serviço público, também está presente na imagem do profissional bibliotecário. No estereótipo, a atenção dada ao usuário está estreitamente relacionada ao modo como os servidores públicos atendem a população. Se verdadeira ou falsa, não nos cabe questionar aqui, porém, é certo que à imagem do bibliotecário foi somado mais um componente: o funcionário público. Entendido como aquele que vive às custas do Estado, o funcionário público teria como principal atribuição, procurar formas de ampliar seu salário, através de brechas na legislação, freqüentemente encontradas por aqueles que despendem suas horas de trabalho nessa tarefa. A fonte primária para que o funcionário público desempenhe com competência essa função, é o Diário Oficial - do Município, do Estado e da União - que deve ser minuciosamente esquadrinhado, redundando na total impossibilidade de atender aos usuários - afinal, convenhamos, cada funcionário é uma única, e somente única, pessoa. Do mesmo modo, o bibliotecário ou a bibliotecária, como é retratada em outras imagens (que, em essência, pouco diferem da que apresentamos), não pode tricotar e atender os consulentes ao mesmo tempo. Tricota-se primeiro e, sobrando tempo, presta-se auxílio a quem solicita. Nada mais justo, então, do que o dedo em riste, pois é inconcebível e imperdoável que alguém possa ser tão insensível a ponto de solicitar a atenção de quem está concentrado em agulhas e linhas, num azáfama complexo. É inacreditável que os usuários de uma biblioteca não percebam a função social de quem tricota agasalhos, meias, cachecóis, toalhas de mesa e coisas parecidas. O dedo em riste é merecido pois, além de importunar os afazeres da bibliotecária, os usuários demonstram total incapacidade e despreparo para se utilizar do acervo organizado para eles com carinho, tabelas, fichinhas e dedicação. Em resumo: o profissional bibliotecário é entendido como improdutivo, passivo, guardião do passado, ocioso, inútil, sem função social e, horror dos horrores, funcionário público. Acrescentar a esse rol de adjetivos mais um, o de conformista, não vai piorar a imagem desse profissional que se faz presente como reprodutor da ideologia dominante, como aquele que colabora na sustentação e preservação dos valores, idéias, propostas e interesses das classes que detêm o poder. A postura e a atitude do bibliotecário parece, muitas vezes, deixar de lado o conformismo para transformar-se em apoio e afirmação deliberada de posições reconhecidamente parciais. Como dissemos anteriormente - e vale aqui relembrar - o bibliotecário e a Biblioteca Pública mesclam-se formando um único estereótipo. A exemplo do verso extraído da canção de Geraldo Vandré, a Biblioteca Pública também pode ser entendida como revolucionária. Na verdade, não só entendida e reconhecida, mas com uma atuação revolucionária. Revolucionar quer dizer transformar de modo radical, alterar uma ordem estabelecida. Em nosso contexto social isso significa instrumentalizar a população afastada dos canais do poder, de forma a que ela possa interferir nas decisões e influenciar nos destinos da sociedade. Como a Biblioteca Pública participaria desse processo revolucionário? Alimentando a população com informações que interfiram e tornem transparentes o jogo do poder e as relações de classes; servindo de contraponto em relação aos meios de comunicação de massa; criando novas demandas e procurando satisfazê-las em detrimento de falsas necessidades introjetadas pela sociedade de consumo; abrindo espaços que permitam à população, não só consumir, mas produzir cultura; produzindo informações que veiculem as necessidades e os interesses da população; advogando e sustentando o direito das classes dominadas de se fazerem ouvir; incentivando o surgimento em cada pessoa, da consciência da cidadania através de informações que propiciem o conhecimento dos direitos de todos aos bens mínimos que proporcionam o acesso a uma vida digna; participando da vida da comunidade que atende; privilegiando os carentes de tudo, inclusive, e principalmente, de informação, etc., etc., etc. Entre os trabalhos desenvolvidos pela maioria das Bibliotecas Públicas, no entanto, não estão presentes nenhum dos citados acima. A Biblioteca Pública não tem uma atuação revolucionária e, não seria temeroso afirmar, nem quer ou pretende ter uma atuação com esse caráter, ao contrário, a grande maioria dos profissionais bibliotecários estão inocentemente (ou nem tão inocentemente assim) imbuídos e envolvidos pela ideologia hegemônica. Basta lembrar, confirmando a afirmação, que a idéia de imparcialidade da atuação do bibliotecário, sustenta políticas e filosofias de trabalho. Acreditando ser imparcial, na medida em que, democraticamente, oferece uma gama de opções para que o usuário faça sua escolha, o bibliotecário se auto exclui do processo de pesquisa, imaginando que dessa forma isenta as informações de possíveis influências suas. Considera-se, por outro lado, um intermediário imprescindível e não descartável, dentro do processo de transferência de informações, um tradutor entre a questão e a resposta, entre a linguagem natural e a documentária. Contraditórias são, no mínimo, tais idéias, pois a concepção de imparcialidade pressupõe ser o profissional bibliotecário desnecessário na relação usuário/informação. Mero instrumento que decodifica objetivas mensagens presentes nos documentos, a principal função daquele que atua na Biblioteca Pública seria a de confeccionar, qual meias, cachecóis e toalhinhas de mesa, imensos e minuciosos fichários, envolvendo a verdade num espaço nunca maior do que 12,5 X 7,5 cm. Bastariam as gavetas repletas de fichinhas, já que o intermediário não passa de um indicador (vale o dedo também) do que existe à disposição do usuário, não fosse a função social do tricô. Como ser revolucionário considerando-se imparcial? A imparcialidade presente no discurso biblioteconômico lembra um outro conceito: apolítico que, a exemplo daquele, inexiste. São conceitos que fazem o jogo manipulador dos dominadores; que permitem a sensação de não comprometimento, de não responsabilidade com a situação social, política, econômica, etc. A Biblioteca Pública, ante essas considerações, nada mais seria do que o depósito de textos e informações, reunidas e organizadas a partir do ponto de vista das classes que ditam e determinam as normas e valores da sociedade. Sem interferência, o bibliotecário e a Biblioteca Pública beneficiam as regras das relações sociais em vigor, colaborando para sua reprodução. Sem interferir, a Biblioteca Pública assume o papel de aparelho ideológico de Estado. Do mesmo modo, a passividade do bibliotecário que se traduz, entre outros, na espera de que o usuário procure seus serviços e reconheça o valor social da Biblioteca, também aponta para o seu caráter não revolucionário. O conformismo e a identificação com uma ideologia não popular, estão encobertos pela justificativa da imparcialidade que, por sua vez, leva à passividade, à acomodação. A democracia inviabilizaria qualquer tipo de interferência. A verdade, a incontestável verdade, não só existe como tem sua morada nos livros. A Biblioteca Pública, assim, seria o templo da verdade absoluta, embora a democracia, personificação política dela, exigiria também a presença de obras que deturpam a verdade. É claro que os exageros devem ser contidos: as obras que reconhecidamente visam desestabilizar a ordem constituída, mantenedora da paz social e da tranqüilidade no convívio entre os homens, devem ser expurgadas ou, quando muito, de acesso restrito apenas àqueles que possuam uma sólida formação moral. Para os bibliotecários que assim pensam, Bastos Tigre cede lugar a Jorge de Burgos. Os que defendem tais idéias, a grande maioria vale enfatizar, esquecem que a interferência do bibliotecário sobre o processo de pesquisa e de transferência da informação ocorre a todo momento, a cada gesto, fala postura, etc., quando de sua relação com o usuário. Inicia-se com a própria seleção dos materiais que formarão o acervo. Determinar prioridades é um ato político por excelência, refletindo identificações, concepções e redundando, necessariamente, numa interferência, já que a decantada possibilidade de opção oferecida pela Biblioteca Pública é fruto dessa seleção inicial. De igual modo, a análise de conteúdo dos documentos, pelo seu caráter subjetivo, propicia e exige a participação do profissional bibliotecário, com sua bagagem técnica mas, principalmente, com suas concepções, crenças e ideologias. A classificação/indexação de um material traz como resultado também, a exteriorização do modo de ver, entender, vivenciar e compreender o mundo, por parte daquele profissional bibliotecário que tratou tecnicamente o material. A disposição dos livros nas estantes configura um discurso único, fruto do modo de pensar dos trabalhadores da Biblioteca a que pertence aquele acervo. A estrutura física da Biblioteca, ou seja, o prédio, os móveis, a disposição das salas, seções, departamentos e divisões, o espaço concedido para o acervo e para os usuários, o lay-out, configuram-se como interferência do bibliotecário. A participação do usuário é que se faz com menor intensidade, mesmo sendo ele o fim último dos trabalhos desenvolvidos e dos serviços oferecidos pela Biblioteca Pública. Bibliotecário e Biblioteca podem ser entendidos como conformistas e como revolucionários. No entanto, com motivos de sobra e mais próximos da realidade, a sociedade os identifica com a primeira alternativa: conformistas. Bastaria isso para que a população os considerasse inúteis socialmente. Infelizmente, há muito mais. Poderíamos discorrer sobre vários aspectos que motivam o afastamento, o distanciamento entre população e Biblioteca Pública. Importa lembrar que a atual concepção de Biblioteca Pública surge no final do século passado, nos Estados Unidos e suas premissas básicas continuam em vigor até hoje. Esse modelo inicial americano foi importado e transportado para o Brasil pelas mãos e inteligência de Rubens Borba de Moraes, mas as alterações necessárias para que se adequasse às especificidades do nosso contexto social, foram poucas. Até hoje, transcorridos quase 60 anos da implantação do modelo, mesmo após sua expansão e assimilação por todo o Brasil, partindo de São Paulo e, ainda, apesar das transformações que se operaram na sociedade brasileira, a Biblioteca Pública pouco ou quase nada modificou do comportamento, postura, princípios e modo de atuar daqueles primórdios. Alguns setores, não restritos exclusivamente à classe dos profissionais bibliotecários, identificados com os segmentos populares dos países do terceiro mundo, procuravam - e ainda procuram - formas alternativas de trabalho com a cultura popular. A biblioteca faz-se presente nas preocupações desses setores, embora descartem a Biblioteca Pública, na forma como hoje se apresenta, pois a consideram comprometida com a ideologia dominante e, portanto, inadequada para responder às necessidades e interesses das classes populares. Opta-se, então, pela criação dos Centros de Documentação Popular e das Bibliotecas Populares. Evidentemente, as discussões e as experiência ocorridas, com ou sem a presença de bibliotecários qualificados por cursos superiores específicos, alcançam o seio da classe biblioteconômica que acaba parindo debates e questionamentos. Infelizmente, os rebentos que resultam desse doloroso parto, além de prematuros foram arrancados à forceps e acarretaram problemas no organismo bibliotecário até então possuidor de um regular, metódico e sistemático metabolismo. É preciso que se diga que o corpo biblioteconômico sobrevivia dentro de uma escorreita harmonia, às custas de amargos e poderosos remédios que o mantinham em estado de completa letargia. Os estragos e rebuliços que poderiam ter causado tais debates e questionamentos foram sustados e amenizados, evitando-se abrir espaços para esses arautos do apocalipse. Os Congressos restringiam a participação deles e as revistas especializadas não publicavam seus artigos. Os alternativos que procurem suas negas, quer dizer, suas alternativas. Serão impedidos à todo custo, de contaminar os órgãos sadios que mantêm o equilíbrio e dão sustento a um corpo estremecido. A resposta mais forte às pretensões dos defensores da Biblioteca Popular, foi o surgimento da idéia de Biblioteca Comunitária. Amenizava-se a concepção mais radical proveniente da proposta da Biblioteca Popular, cujo número de adeptos começava a crescer. Alguns ainda hoje teimam em afirmar, embora contestados, que o termo Biblioteca Comunitária foi engendrado nos intestinos do Centrão - grupo de Deputados Federais e Senadores, suprapartidário, que se formou por ocasião da Constituinte brasileira de 1988. Deixando de lado seu surgimento, o certo é que a reação acabou conseguindo seu intento: hoje, o termo Biblioteca comunitária foi assimilado e aceito, enquanto Biblioteca Popular continua rejeitada e marginalizada. Entretanto, o número de Bibliotecas Populares e Centros de Documentação Popular implantados e em funcionamento é muito maior do que as experiências concretas de Bibliotecas Comunitárias. A mesma reação também atingiu uma das noções básicas das Bibliotecas Populares: a informação social. Contra ela, e com o mesmo espírito amenizador e desarticulizador, os teóricos, como diríamos, tradicionais da Biblioteconomia, criaram o termo informação utilitária. Não é necessário muita reflexão (diríamos até que está ao alcance de qualquer bibliotecário) para se concluir que informação utilitária objetiva suavizar as propostas, mais radicais evidentemente, da informação social. Alega-se que a utilitária é mais abrangente, evitando assim, a priorização de uma classe social em detrimento das outras, ou seja, deixando tudo como está, alterando-se apenas os nomes das coisas. Não é a primeira vez que, na Biblioteconomia, os nomes são alterados sem que nada se modifique: basta lembrarmos o novo currículo mínimo implantado em 1984. A Biblioteca Pública foi rejeitada, como vimos anteriormente, porque sua atuação, na maioria dos casos, ainda hoje, parece indicar um comprometimento com a ideologia dominante. Estaria, dessa forma, em dissonância com os interesses e as necessidades das classes populares. As Bibliotecas Populares e os Centros de Documentação Popular, ao contrário, estariam não só comprometidos com as classes populares, como também teriam participação e presença concreta entre elas. No entanto, a infra-estrutura, os serviços, os suportes, os trabalhos etc., tanto na Biblioteca Pública como na Popular, teriam poucas variações. Nossa hipótese é de que a diferença entre elas está centrada na ideologia que permeia, perpassa e fundamente cada uma delas; que o conformismo e o revolucionário, embora opostos, podem qualificar tanto a Biblioteca Pública como a Popular, ou seja, não é a denominação que acompanha uma Biblioteca que a transforma em mais ou menos comprometida com as classes populares, mas a priorizaçåo, a determinação do público para o qual está ela voltada e o direcionamento de todas as suas atividades para satisfazer as necessidades dele, além de veicular seus interesses e participar de sua história. http://www.ofaj.com.br/pessoais_conteudo.php?cod=9 Quem determina o caminho, a opção da biblioteca pública (conformista ou revolucionária) é o bibliotecário. Na verdade, podemos agora afirmar que a biblioteca pública, deixando de lado maniqueísmos e antagonismos, é ao mesmo tempo revolucionária e conformista, que a biblioteca pública, a exemplo de várias outras instituições, é ambígua, é contraditória por natureza. Não há instituições puramente revolucionárias ou puramente conformistas, todas carregam e exteriorizam as duas posições. Qualquer posição assumida pela biblioteca, de forma consciente ou inconsciente, não está isenta ou imune à outra, pois não existem posturas ou lados exclusivos. A biblioteca pública penderá para o lado determinado pelo bibliotecário. Embora parecendo nula, a profissão do bibliotecário reveste-se de extrema importância. Não de uma importância passiva, restrito ao mero trabalho de fornecer livros previamente solicitados pelos usuários, mas de uma importância ativa, reflexo e conseqüência de uma atividade que exige posicionamentos e opções a cada momento. Para cada questão formulada por um usuário, existe a necessidade de uma atividade diferenciada, de uma opção quase que única de atendimento. A estratégia de busca é diferente, em cada pesquisa, pois deve adequar o tipo de informação àquele usuário em particular. Sem uma postura, sem um posicionamento anterior, é impossível atuar sobre aquela relação com um mínimo de coerência. Falta ao bibliotecário uma discussão consigo mesmo, um questionamento sobre sua postura, seu modo de ver, interpretar e entender o mundo, fazendo-se partícipe das decisões sobre os destinos da sociedade. Da mesma forma, deve estar ele preocupado em oferecer aos usuários, à comunidade, ferramentas e instrumentos que auxiliem a participação deles também na gestão dos rumos da sociedade. Hoje, o bibliotecário está alheio e excluído desse processo, o que pode ser o principal motivo pelo qual é reconhecido pela sociedade como um profissional inútil. Talvez, como marginalizado, reste ao bibliotecário a subversão. Uma subversão que possui os instrumentos para implantá-la, uma subversão que possa ser oferecida e, quem sabe, ansiada pela sociedade. Retomamos, porque ainda válidas, duas propostas que apresentamos e defendemos em outros momentos: para o bibliotecário passivo, descrente de sua profissão, a terapia do analista de Bagé: a terapia do joelhaço. E, como segunda proposta, acrescentarmos o adjetivo “guerrilheira” à Biblioteconomia, pois ainda necessitamos de uma biblioteconomia guerrilheira. ... Sobre Oswaldo Francisco de Almeida Júnior Professor associado do Departamento de Ciência da Informação da Universidade Estadual de Londrina. Professor do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da UNESP/Marília. Doutor e Mestre em Ciência da Comunicação pela ECA/USP. Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação da UFCA- Cariri - Mantenedor do Site.